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Goiás: um Estado no vermelho
 

Enquanto a preservação do verde toma lugar de destaque na Região Nordeste de Goiás, na Região Central a devastação da vegetação nativa chega a números alarmantes. Casos dos municípios de Goianira e Damolândia, onde a cobertura vegetal original está próxima de zero. Os dados são do Sistema Integrado de Alerta ao Desmatamento (Siad), da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh). Pelos números do ano passado, medidos pela escala 1:250.000, os municípios de Teresina de Goiás e Cavalcante são os mais preservados, com 98,44% e 95,92% de vegetação original, respectivamente.

O Nordeste Goiano é também a macro-região do Estado mais preservada. Dos 15 municípios com maior porcentual de cobertura vegetal nativa, 10 localizam-se na região. Três estão no Entorno do Distrito Federal e dois no Norte do Estado. Já os mais devastados concentram-se nas regiões Central e Metropolitana de Goiânia. Dos 15 municípios mais devastados, 11 situam-se no Centro de Goiás (Mato Grosso Goiano), três na Grande Goiânia e um no Sudoeste do Estado. O estudo revela os índices de preservação em todas as regiões do Estado e entre as 15 maiores cidades goianas Trindade tem a natureza mais destruída, com apenas 2,86% de vegetação nativa.

Em Trindade, a situação preocupa o prefeito e presidente da Associação Goiana dos Municípios (AGM), George Morais (PSDB), que luta agora para recuperar a nascente do Córrego Arrozal, responsável pelo abastecimento de água de 65% da população trindadense. “Aproximadamente 65 mil pessoas consomem as águas do Arrozal e até o final do ano a prefeitura deve recuperar a nascente do córrego com o reflorestamento da área”, explica o prefeito. George afirma que o projeto está na Agência Goiana do Meio Ambiente (AGMA) e que recursos de R$ 139 mil são necessários para a execução do serviço.

O prefeito anuncia também para este ano a construção do Parque Ecológico do Cerrado, numa área de dois alqueires, onde atualmente está o Viveiro Municipal, região leste da cidade. Segundo o superintendente municipal do Meio Ambiente de Trindade, Felipe Fenelon, o projeto será nos moldes dos mais famosos parques urbanos das cidades européias. A confecção do projeto está sob responsabilidade do agrônomo e paisagista João Teles.

Ameaça ao bioma
O superintendente de Biodiversidade e Florestas da Semarh, Emiliano Lobo de Godoi, considera Índices de preservação inferiores a 20% como uma ameaça ao bioma (Em ecologia, chama-se bioma a uma comunidade biológica, ou seja, fauna e flora e suas interações entre si e com o ambiente físico: solo, água e ar). “A fragmentação do bioma causa erosão genética, uma vez que as espécies começam a se isolar, reduzindo o seu número e com isso iniciando um processo de extinção”, explica Emiliano, lembrando que, por isso, as áreas de reserva legal são estipuladas em, no mínimo, 20%. “Este índice não foi determinado por acaso”, afirma.

O Efeito de Borda também é responsável pela fragmentação do bioma. O efeito ocorre quando uma determinada área é desmatada e os espécimes vegetais que se salvaram formam a ‘fronteira’ entre a área desmatada e a preservada. “As árvores, antes acostumadas a um determinado ambiente, agora, por estarem na divisa com a área derrubada, passam a receber muito mais luz e vento, o que reduz seu ciclo vital, levando-as à morte”, afirma Emiliano. O superintendente explicou que um índice de preservação de 10%, o que ocorre na maioria dos municípios goianos, podem eliminar cadeias de espécies vegetais. “O empobrecimento do solo, o surgimento de erosões, o assoreamento dos mananciais, a incidência de pragas ainda elevam os custos de produção”, lembra Emiliano.

Política pública contra o desmatamento
Segundo o presidente da Agência Goiana do Meio Ambiente, Osmar Pires, em todo o Estado o cerrado nativo ocupa 34% do território de 341.289,5 km2. “É utopia pensar que um fazendeiro ou empresário manterá a natureza intacta, neste mundo onde o capital parece ser meio e fim de tudo. Necessário é elaborar políticas públicas que contemplem e sirvam de compensação financeira para os proprietários rurais”, explica Osmar.

Para o presidente, a instituição do Projeto Bolsa Verde pode ser uma saída para manter a vegetação nativa das regiões Norte e Nordeste de Goiás, as mais preservadas, atualmente. “A s regiões Norte e Nordeste estão no verde, enquanto que as regiões Sul e Sudoeste, por exemplo, estão no vermelho. Temos que criar um mecanismo de troca, com o Bolsa Verde, na forma de um título de crédito oferecido no mercado pelos fazendeiros que tenham excesso de mata em suas fazendas. O proprietário, então não vende a terra, mas sim o benefício da preservação”, explica Osmar.

O presidente da AGMA analisa que o estudo do Siad permite, ainda, definir as zonas de fragilidades ambientais no Estado e que precisam de intervenções diferenciadas, a fim de garantir a integridade e preservação dos recursos genéticos existentes. Além disso, as imagens de satélite possibilitam a elaboração e execução de políticas públicas capazes de identificar as causas do desmatamento e detê-las. Atividades econômicas, como a pecuária e a extração vegetal para a produção de carvão, bem como o avanço das lavouras em algumas regiões são os principais motivos do desmatamento.

Por causa disso, a criação de unidades de conservação das mais variadas categorias e a intensificação de medidas de fiscalização, prevenção e proibição de práticas prejudiciais ao meio ambiente têm sido adotadas em todo o Estado. Como exemplo a instrução normativa 001/2005 que condiciona a autorização para desmatamento à comprovação prévia da conservação das áreas de proteção permanente e da averbação e conservação das áreas de reserva legal.


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