SÉRGIO STORCH: A solução do problema
pode estar na cidade ao lado
Se soubéssemos o que sabemos, a vida seria bem melhor. Nas empresas, essa constatação tomou corpo desde o início dos anos 80. Nos Estados Unidos, berço da linha de montagem, prevalecia o uso do trabalhador apenas do pescoço para baixo. Era vitoriosa a ideologia do "cada macaco no seu galho".
Já na Europa e no Japão, apareceram as ilhas de produção e os círculos de controle de qualidade (CCQ), que estimulavam operários a conversar, analisar os problemas e criar soluções, usar idéias. Não era por acaso.
Na Europa, era fruto histórico de um sindicalismo nascido no século 19. Suas lutas resultaram em melhor distribuição de renda e na organização do chão-de-fábrica, até em hegemonia política nos parlamentos. No Japão, era preciso exportar, e era imperativo vencer o estigma dos produtos de má qualidade. Paradoxalmente, entre os mentores dos novos modelos de produção no Japão estavam consultores norte-americanos (Deming e Juran), que no seu país falavam com as paredes, mas que o Japão escutou.
Há 30 anos, a competição estrangeira começava a desbancar a indústria automobilística norte-americana no seu próprio mercado. Os métodos de produção da Volvo sueca e da Toyota japonesa passaram a ser vistos nos MBA como alternativas desejáveis.
Usar a cabeça do trabalhador era uma idéia não tão nova, mas que não tinha pegado. Idéias são coisas vivas que nascem, desenvolvem-se e um dia até morrem. Mas antes disso, elas se movem. Na caminhada das idéias desde então, as empresas descobriram o ‘conhecimento’, e começou-se a falar de ‘gestão do conhecimento’ e ‘capital intelectual’.
Estas idéias atravessaram a parede das empresas. Penetraram em alguns governos, instituições educacionais, no Terceiro Setor, e até no Banco Mundial.
O que será que pode ser a gestão do conhecimento nas cidades? Se soubéssemos aprender com as boas práticas do município vizinho... Aproveitar o que foi inventado na administração anterior... Se soubéssemos o que sabe o conjunto de taxistas e donos de botequins de nossa cidade... Como engajar todo síndico e todo porteiro na redução do consumo de água e na gestão do trânsito do bairro... Que a solução para o problema de nossa cidade está em outro município da mesma microbacia...
Há muitos mestres nessa escola: Barcelona, Bolonha, Estocolmo, Mondragón, Bogotá, Nova York, Curitiba, Piraí, São Carlos... Cidades-mestres em várias matérias: educação, saúde, trânsito, segurança, lazer.
Desde que a revolução industrial inventou a fábrica, decorreram quase dois séculos para que seus donos descobrissem que trabalhadores circunstancialmente juntos no mesmo tempo e lugar poderiam também ser usados da cabeça para cima.
Cidadãos e governantes se descobrem juntos, não precisando estar no mesmo lugar na mesma hora, mas podendo trocar idéias sobre problemas e soluções. O poder do cidadão não é mais apenas o voto. Instrumentos de participação nas decisões sobre o futuro das cidades já existem, alguns outros precisam ser inventados.
Por que não ser a sua cidade também mestre? Talvez valha a pena, na base da ‘água mole em pedra dura’, convencer as lideranças de seu município a se abrirem para essa idéia: gestão do conhecimento para uma inteligência urbana.
Sérgio Storch é presidente do pólo São Paulo da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento (SBGC).