Envolvidos com a vida que segue no Setor Mariápolis, cerca de 100 estudantes de escolas particulares de Goiânia realizam atividades que incentivam a cidadania entre os moradores do local, onde asfalto, tratamento de esgoto, posto de saúde e posto policial são apenas notícias na imprensa, benefícios prometidos a cada novo pleito eleitoral
Para chegar ao Setor Mariápolis, no município de Trindade (GO), o chão batido é o caminho a partir da Rodovia GO-060, conhecida como Rodovia dos Romeiros. Distante seis quilômetros do asfalto rodoviário, a localidade é cercada de lavouras, pastagens e matas nativas, quase escondendo uma comunidade carente de benfeitorias, obras públicas.
Casa de cerca de 800 moradores, Mariápolis nem parece o Brasil das manchetes do Produto Interno Bruto (PIB) em crescimento, do País do Bric, o grupo das economias emergentes, juntamente com Rússia, Índia e China. "O setor assemelha-se mais a Angola, País africano de pobreza econômica acentuada", afirma a agente de saúde do lugar, Angélica Alves, 27.
Agente de saúde sem ao menos ter ‘ponto de parada’ para o seu trabalho, Angélica lembra que o posto de saúde mais próximo do Mariápolis fica a três quilômetros de distância, no Setor Bela Vista. O que, para ela, reflete o descaso para com a população da região: "Ano que vem, político aparece por aqui", diz o pioneiro local Benjamim dos Santos, 64, lembrando das eleições municipais em 2008.
Também sem posto policial, asfalto, urbanização, tratamento de esgoto e contando com apenas uma linha de ônibus coletivo urbano (a cada uma hora), no Setor Mariápolis parece ser comum ouvir a frase "não como feijão faz uma semana", dita pela dona de casa Cleovane Santana da Silva, casada, mãe de três filhos, estudante até a 5ª série do ensino médio, desempregada, e com pouco alimento em casa.
"Tenho vontade de estudar, mas não tem escola para mim aqui", lamenta Cleovane, à frente da única instituição de ensino do Mariápolis, a Escola Municipal Gleide Mendes de Lima, que instrui até a 4ª série do 1º grau. Unidade de educação ainda incapaz de mudar uma outra faceta local, apontada por Angélica: "Temo que 60% dos moradores do Mariápolis não sejam alfabetizados."
Os postes de iluminação instalados nas ruas do setor mostram que endereço a população do Mariápolis possui, assim como água tratada. Apesar disso, o lugar apresenta inúmeras cisternas para captação de água, o que, para Angélica, pode trazer doenças aos moradores, pois o setor foi construído praticamente sobre um lixão desativado: "O lençol freático da região está contaminado."
Endereço da cidadania
Mas não são apenas as contas de luz, os comprovantes de endereço, que dão um recado de que no Mariápolis o cidadão sobrevive. A presença de estudantes da cidade grande, vindos de famílias de classe média, principalmente, reserva ao local a sua poção de mudança, provando que a luta por um Brasil mais solidário e justo passa pela educação, cidadania, pela atitude.
Com trabalho cuidadosamente planejado e executado por cerca de 100 ‘soldados’ do projeto ‘Cidadania pela Cidade’, voluntários de escolas particulares de Goiânia adotaram Mariápolis, seus problemas, sonhos e soluções. Jovens como Diogo Maroja, 15, estudante do 1º ano do 2º grau do Colégio WR, que afirma que ouvir sobre a situação da desigualdade social entre a população brasileira é muito diferente de vivê-la.
"Estamos em contato com chão de terra batida, adolescentes grávidas, pouca escolaridade, saúde precária, e, tudo isso, a poucos quilômetros da Capital", analisa o estudante em dia de programação do projeto. Retrato que, para Diogo, é a imagem de um País cultivador de incompetência em gestão pública.
Sob coordenação de Crisdinei Soares, o Cris, 34, filósofo e professor de Sociologia, Filosofia e História da Arte, o ‘Cidadania pela Cidade’ abriga alunos das escolas Classe, WR, Prevest, Dinâmico e Visão, além de acadêmicos de Enfermagem e Biomedicina da Faculdade Padrão.
Criado no segundo semestre de 2007, de forma independente, sem ligação com as instituições de ensino citadas, o projeto surpreende pelo envolvimento dos estudantes. Tanto que Thaís Gonçalves Menezes, 15, também estudante do 1º ano do 2º grau do WR, afirma não abandonar o ‘barco’ enquanto não ver resolvidas as principais carências do Mariápolis: "Estou empenhada, e meus pais me acompanham."
O agrônomo Luiz Antonio Silva, 47, pai de Thaís, assina o que a filha diz, lembrando que ela agrega as características do voluntariado, "do bom coração em função do próximo".
Conquista social
O trabalho desenvolvido por meio do ‘Cidadania pela Cidade’ quer distância da palavra assistencialismo. Segundo o professor Crisdinei, o objetivo de quem integra a ação é provocar na comunidade do Mariápolis o desejo pela vida digna, pelo estudo, profissionalização, doar esperança para uma população antes praticamente sem voz, sem estima.
Crisdinei lembra que, para isso, todos os alunos envolvidos no projeto recebem aulas com temas ligados à conquista da cidadania, "essencial para que os próprios estudantes levem a informação, o conceito aos moradores do setor". A partir daí, há a ‘costura’ do planejamento sobre o que fazer e como levar benefícios à comunidade.
Palestras sobre diversos temas, atendimento médico, brincadeiras de criança, doações e momentos de cultura fazem parte do acervo de responsabilidade social junto aos moradores locais. "Lidamos com gestantes, medindo a pressão arterial e sinais vitais, promovendo palestras sobre os cuidados com o bebê, como é o parto, doenças pós-parto", afirma Júnio Sócrates de Almeida, 23, acadêmico do 6º período de Enfermagem da Faculdade Padrão.
Um cotidiano presente na vida de adolescentes que poderiam usar o tempo livre para idas a shopping centers, por exemplo, mas que preferem passar dias de sábado planejando ações e agindo pela melhoria das condições de sobrevivência no Mariápolis. "Também vou a shoppings, passeio bastante, mas trabalhar em prol da comunidade me dá um prazer diferente, uma leveza na alma", diz Thaís.
Leveza estampada, também, no rosto de quem recebe a dedicação do professor Crisdinei e dos estudantes. O pioneiro Benjamim acredita que, agora, Mariápolis realmente pode encontrar seu caminho, pois "não está mais esquecido por todos". O morador manifestou felicidade quando informado de que o ‘Cidadania pela Cidade’ já tem pré-agenda com o governador de Goiás, Alcides Rodrigues, para o ano que vem.
"A assessoria de gabinete do Palácio das Esmeraldas deve conseguir uma data em janeiro próximo para apresentarmos ao governador Alcides as reivindicações da população de Mariápolis", explica Crisdinei. Mas, e a Prefeitura de Trindade? "Já tentamos falar com o prefeito George Morais e não conseguimos agenda", garante o professor.
Fé e responsabilidade social
Os 34 anos do professor Crisdinei Soares revelam uma identidade ligada à família, religião e serviços comunitários. Nascido no bairro de Nova Brasília, em Bom Jesus da Lapa, município do noroeste da Bahia, distante cerca de 820km de Salvador, Crisdinei vendeu fitinhas do Senhor do Bomfim durante sua infância e passou oito anos em seminários católicos de cidades baianas, como Amargosa, Caetité e a Capital do Estado.
Já em Goiânia, o professor também viveu em seminário, mas, o jovem, beirando os 23 anos de idade, decidiu não mais ser padre, mudando-se para uma casa de estudantes universitários para continuar a cursar Filosofia, estudos iniciados em Salvador. Atualmente, Crisdinei é professor da disciplina em escolas particulares e faculdades da Capital goiana, além de estudar Direito na Universidade Católica de Goiás (UCG).
Segundo Crisdinei, a escolha do Setor Mariápolis para implantação do projeto ‘Cidadania pela Cidade’ foi motivada pelo reconhecimento dos problemas relatados por meio de moradores do lugar que ele conhece, onde situações em que viveu na sua infância se repetem na localidade.
Para o professor, ações de responsabilidade social tendem a ser mais acertadas quando se tem a experiência dos lados extremos da vida: "Depois da passar da pobreza quase absoluta para uma boa condição social, aprendi que promover a cidadania é o caminho para transformar vidas carentes de oportunidades".
Natal sem fome
Fazendo a hora e não esperando acontecer, os integrantes do ‘Cidadania pela Cidade’ organizaram um final de ano mais feliz para quem vive no Mariápolis. O "Natal Sem Fome e Com Brinquedo" levou 163 cestas básicas às famílias do setor, alimentos arrecadados por meio de campanhas como a do ‘Arroz e Feijão’, quando as doações chegaram a 131kg de arroz, 36kg de feijão e 21kg de macarrão.
Além dos alimentos, o projeto arrecadou brinquedos para as crianças locais, objetos que foram entregues em uma manhã de sábado que antecedia a semana do Natal. Unidos em uma espécie de quartel-general do ‘Cidadania pela Cidade’, a empresa Alucentro em Goiânia, Crisdinei e alunos repetiram dias de solidariedade aos problemas da comunidade do Mariápolis.
O sol era forte, mas a vontade de ver o sorriso estampado no rosto dos moradores do setor era maior ainda. Uma pequena viagem de cerca de 15km separava o rito final de 2007 de um projeto que promete acompanhar o ano novo, até que a cidadania se cumpra. "Todo dia de programação é assim: nos reunimos no auditório da Alucentro, preparamos o que vamos fazer e partimos de ônibus para Mariápolis", afirma Crisdinei.
Na chegada ao setor, os moradores abrem as portas de suas casas e rumam para a Escola Gleide Mendes de Lima. Impressionam o respeito mútuo e a felicidade de quem doa e recebe. Uma fila formada à frente da escola para o recebimento das cestas básicas é o termômetro dessa relação de confiança. Sem tumulto, todas as famílias que permaneceram na corrente humana foram agraciadas com os alimentos.
Ao final da programação de Natal, Mariápolis parecia recinto de feira livre. Carrinhos indo e vindo nas ruas do setor, alimentos sendo levados para casa e repartidos entre quem mais precisava. "Recebi uma cesta básica em nome de uma amiga, pois ela estava trabalhando em Goiânia", diz a dona de casa Cleovane.
Invasão’ dificulta projetos
Coincidentemente, promover a vida cidadã é o ofício da primeira-dama de Trindade, Flávia Morais, secretária de Cidadania do Estado de Goiás. Questionada se o tema do projeto ‘Cidadania pela Cidade’ está distante da comunidade que vive no Mariápolis, Flávia reconheceu as demandas locais, mas enumerou conquistas para uma área de invasão: escola, creche filantrópica, entrega de cheques-moradia e inclusão das famílias locais em programas de renda mínima (governo estadual), instalação de água tratada e energia elétrica. "Outros projetos do Estado para o setor estão em espera, justamente porque o lugar é um território ainda ilegal", explica a secretária.
Para mudar essa situação, Flavia lembra que o governo estadual está preparando a escrituração de todos os lotes e residências do Mariápolis para 2008, ano em que o prefeito de Trindade, George Morais, prevê melhorias para a comunidade: "Estamos requerendo, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Governo Federal, cerca de R$ 10 milhões para a construção da rede de esgoto local, antecedendo o asfaltamento das ruas".
George anunciou também a construção de mais duas salas de aula na Escola Municipal Gleide Mendes de Lima, além do reforço em cursos profissionalizantes, que podem servir aos moradores do lugar, como corte e costura, panificação, marcenaria e construção civil. Quanto à falta de posto de saúde, o prefeito afirma que pela pequena quantidade de famílias vivendo no setor, a prefeitura resolveu direcionar o atendimento médico para o Setor Bela Vista, o mais próximo da comunidade, distante 3km.
Com relação à inexistência de posto policial, George lembrou que manter este tipo de policiamento em bairros ou setores de cidades goianas não é mais a política de segurança pública do Estado, que prefere investir nas patrulhas motorizadas. Segundo a secretária Flávia, um novo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) será construído para atender os moradores do Mariápolis e mais dois bairros de Trindade.